“Clarisse morreu, se matou à meia-noite de ontem. Me ligou cinco minutos antes, talvez pra se despedir, talvez pra pedir desculpas, talvez pra tentar se impedir. Eu nunca vou saber… não pude atender.
Os legistas ainda não falaram que foi à meia-noite, mas eu sei. Fascinada como era pela noite, Clarisse queria dizer que não suportaria mais a ideia da chegada de outro dia, e não suportou. Sinto tanta dor que parece que foram os meus pulsos a serem rasgados. O mundo já não me interessa, logo a alcançarei.
Andava com depressão minha menina, ninguém sabia além de mim. Claro que ela tentou dizer aos pais, nas suas olheiras fundas, na sua rebeldia sem aparente causa, e até mesmo com palavras. Como a gente só vê o que quer e o que suporta ver, eles não viram. Uma hora antes da morte conversávamos pela internet, ela me dizia que tinha escolhido viver, que tava querendo ser feliz, e que a culpa era minha. Saiu sem avisar e depois me mandou sms avisando que os pais tinham desligado o computador à força e que tava no meio de uma discussão, disse que mais tarde ligaria.
No velório a mãe, em estado catatônico, me entregou dois bilhetes sem dizer uma palavra. Em um, a letra borrada de sangue de Clarisse dizia: Se até vocês não me amam, por que eu me amaria? E no outro, ainda molhado das lágrimas dela dizia somente: Darling, i’m so sorry. I love you, forever, in hall, in sky, whatever.
A mãe dela me olhou súplice, o que ela disse?
- Pediu pra que não nos culpemos. - respondi controlando as lágrimas.
Era mentira. Claro que era, mas o que eu poderia dizer? Ainda que a culpa me roesse o resto de juízo que tinha, e ainda que eu soubesse da parcela de culpa que as críticas constantes dos pais dela tiveram na depressão dela. De que valeria essa culpa? De que valeria o meu ódio se não traria ela de volta? Eu não consegui salvar-la e isso era tudo.
As rosas do caixão empalideciam e víamos assombrados sua beleza definhar em face da de Clarisse. Eu sorria triste, o bilhete apertado na minha mão, à meia noite nos encontraríamos. In sky, in hell, whatever.”
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