terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

“Clarisse morreu, se matou à meia-noite de ontem. Me ligou cinco minutos antes, talvez pra se despedir, talvez pra pedir desculpas, talvez pra tentar se impedir. Eu nunca vou saber… não pude atender.
Os legistas ainda não falaram que foi à meia-noite, mas eu sei. Fascinada como era pela noite, Clarisse queria dizer que não suportaria mais a ideia da chegada de outro dia, e não suportou. Sinto tanta dor que parece que foram os meus pulsos a serem rasgados. O mundo já não me interessa, logo a alcançarei.
Andava com depressão minha menina, ninguém sabia além de mim. Claro que ela tentou dizer aos pais, nas suas olheiras fundas, na sua rebeldia sem aparente causa, e até mesmo com palavras. Como a gente só vê o que quer e o que suporta ver, eles não viram. Uma hora antes da morte conversávamos pela internet, ela me dizia que tinha escolhido viver, que tava querendo ser feliz, e que a culpa era minha. Saiu sem avisar e depois me mandou sms avisando que os pais tinham desligado o computador à força e que tava no meio de uma discussão, disse que mais tarde ligaria.
No velório a mãe, em estado catatônico, me entregou dois bilhetes sem dizer uma palavra. Em um, a letra borrada de sangue de Clarisse dizia: Se até vocês não me amam, por que eu me amaria? E no outro, ainda molhado das lágrimas dela dizia somente: Darling, i’m so sorry. I love you, forever, in hall, in sky, whatever.
A mãe dela me olhou súplice, o que ela disse?
- Pediu pra que não nos culpemos. - respondi controlando as lágrimas.
Era mentira. Claro que era, mas o que eu poderia dizer? Ainda que a culpa me roesse o resto de juízo que tinha, e ainda que eu soubesse da parcela de culpa que as críticas constantes dos pais dela tiveram na depressão dela. De que valeria essa culpa? De que valeria o meu ódio se não traria ela de volta? Eu não consegui salvar-la e isso era tudo.
As rosas do caixão empalideciam e víamos assombrados sua beleza definhar em face da de Clarisse. Eu sorria triste, o bilhete apertado na minha mão, à meia noite nos encontraríamos. In sky, in hell, whatever.
”
Seu fiel copo em uma mão, um cigarro na outra, musica deprimente bem alta martelando em sua cabeça que já dói de tanto chorar, as lágrimas já se tornam até mais difíceis de sair, as coisas começam a ficar sem sentido, deve ser efeito dabebida, quem sabe. Assim têm sido as noites daquela menina frágil que acorda todas as manhãs com um sorriso aberto em seu rosto.
Nunca soube fingir, mas a maioria das vezes eu queria a felicidade, onde não existia. Risos onde lágrimas queriam cair. Esse foi meu erro, querer maquinar meus sentimentos. Submetê-los quando deveria expressar. Preciso de vários dedos para contar quantas vezes já fugi do amor. Para contar quantas vezes neguei-o. Hoje em dia o conceito do amor é apenas sinta-o. Se for ruim, aprenderá o significado da dor. Se for bom, nunca se arrependerá de ter o deixado ele entrar. Tente.
“E então, deixei de ser causas e me tornei consequências. Aos montes. Embaraçadas como fios de cabelo pela manhã. Mas não eram todas ruins. Algumas tinham cor, muitas tinham cinza. Mas as vezes se tropeçava em um pinguinho de vermelho-de-amor, que de tão vermelho, quase se tornava vinho. Porém, eu esbarrava neles e me embriagava. Sou assim, pouco sóbria quando se trata de sentir demais. Minha mente não descansa, e o coração ao invés de bater, apanha. Mas a gente se cura, a gente se anestesia, e aprende aos poucos a se bastar. Me bastei da dor. Me bastei das ilusões. Me bastei de crises. Fui me bastando, e quando vi só me restavam consequências. E de novo, um pontinho colorido.”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Não pensou direito. Sabia que se pensasse demais, perderia o resto de coragem que ainda lhe restava. Sentia-se cada vez mais aliviada a cada tragada ou a cada carreira de pó que inalava. Sentiu tudo rodando, e só então viu a loucura que havia feito. Apenas deitou-se, e esperou o sono chegar. Não sabia se iria ou não acordar no outro dia. Queria apenas dormir, descansar, e fugir do mundo, de si mesma. Fechou os olhos, e logo adormeceu.
Enquanto cai a chuva, a fumaça do cigarro sobe levando com ela cada pedaço de angústia, cada faísca de medo, deixando sentimentos ruins no cinzeiro e um grande alívio na alma. Mas caralho, a chuva começou a me molhar, não de uma forma confortante, de uma forma irritante, terei que apagar o cigarro entrar na lanchonete, agora com essa nova lei, não da pra fumar la dentro, tenho que ficar aguentando todas aquelas pessoas chatas e suas conversas sem nexo. Agora com o cigarro apagado e aquelas conversas chatas ao meu redor, tudo aquilo que o cigarro ainda não tinha levado, começa a vir a tona. Pelo menos tenho duas boas companhias, meu amor e uma bela dose, das duas, prefiro meu amor, que faz de tudo pra me agradar, sem pedir algo em troca, sem causar malefícios, sem danos a saúde. Nossa, como eu amo, ele é assim, todo certinho, não fuma, não bebe, não xinga, totalmente o meu oposto, sou estourada, histérica, fumante e bêbada. Em uma coisa somos parecidos, no amor, eu o amo, ele me ama e isso basta. O resto são só detalhes. A chuva passou, posso voltar para as mesas externas, sentar, acender um cigarro e ficar ali, com eles, relaxando e aproveitando a noite.